Fazia frio em Lisboa, clima pouco comum para a região e a época do ano. O calçamento sob seus pés traia o ritmo nervoso e levemente claudicante que o impulsionava adiante. Nesta noite de pouca lua, o rosto vermelho e castigado pelas agulhadas do vento mal podia ser visto sob a barba alourada pelo sol e o capuz que lhe cobria a cabeça onde os cabelos compridos começavam a rarear. Os olhos levemente amarelados no entanto não deixavam nenhuma dúvida, estavam frios como o aço, cobertos de astúcia e determinação.
Dobrando em uma estreita viela e olhando para trás para se certificar que não estava sendo seguido, parou levemente para recuperar o fôlego. Por duas vezes engoliu o ar com dificuldade até o ritmo de seu coração diminuir um pouco. Certamente seria tomado por um malfeitor, caso fosse avistado de relance ali. Uma figura soturna, solitária em uma viela escura em um dia frio, onde poucos se aventuravam nas ruas. Algo naquele ambiente não estava certo. Um clima de tensão ia surgindo, um pressentimento. Um grupo de ratos corria, guinchando enquanto se engalfinhavam por um resto purulento de lixo mofado da sarjeta. O zumbir das moscas não era audível devido ao clima selvagelmente frio, o que tornava tudo silêncioso demais.
De sobresalto, ouvindo um movimento em uma porta à sua esquerda, a figura parada salta para o lado sacando uma faca e isntintivamente se colocando fora do alcance da soleira mais próxima. Era uma emboscada ele estava certo. A lâmina prateada reluziu um brilho avermelhado sugerindo que uma camada de sangue ainda se encontrava ali. De fato ele tinha medo, que fosse apanhado. Havia cometido um crime esta noite. Matara um velho, gordo, corrupto comerciante. Correra então depois de ferir sua mulher e ouvir os gritos dos vizinhos e as botas de soldados da guarda da cidade. Um turbilhão de vultos depois, um hematoma nas costelas e uma crosta de sangue endurecido, fruto de um ferimento na lateral da face, Fernam estava pronto para se defender. Não seria apanhado com vida se fosse necessário. Passos vindos dos dois lados da Viela de Alfama denunciavam o que estava prestes a acontecer.
O barulho na soleira era um cachorro que agora desatara em latir do interior, depois de se avançar contra a porta. Pensando com velocidade, galgou alguns degraus rua acima, com o olhar clínico para as portas. Achando uma que parecia mais frágil, se atirou com toda a força contra a madeira. Se rompendo sob o impacto de seu ombro, ele gemeu de dor ao deslocar o ombro e ter a mão esquerda perfurada por uma das lascas de madeira. De sobresalto dois homens no interior já buscavam acender alguma luz e agarrar um porrete enquanto uma mulher gritava por socorro. Antes que qualquer dessas açoes pudesse ter sido terminada, Fernam já havia cruzado o aposento como um borrão e tomado a escada para o segundo andar. Chegando na janela e devovlendo sua faca para o cinto, se alçou para o lado de fora. Em uma manobra ousada agarrou o caibro do telhado, notando quase tarde demais que sua mão esquerda não responderia como deveria ao ter atravessada a ela uma lasca de madeira.
Por infinitas frações de momentos, ele se dependurou em pleno o ar, agarrado com seu braço direito enquanto buscava força para terminar de escalar para o telhado. Seu braço cedia enquanto o teimoso esquerdo sentia o ombro deslocado e mão danificada atrapalhararem. Alguém já subia a escada. Em poucos momentos ele seria apanhado. Dançaria a dança do diabo finalmente, dependurado pelo pescoço enquanto urinava em suas próprias calças, exalando o cheiro do medo e da morte no cadafalso ensebado. Provavelmente seria torturado primeiro. Um sino de igreja badalava indicando o horário.
Então, o inesperado aconteceu.