Não havia muito eu repousara um par de talheres de inox vagabundos,
cujo garfo trazia os dentes tortos e amarelados. Algumas vezes me
perguntava a respeito da utilização de talheres comunitários, quantas
bocas e outras partes do corpo esses camaradas já visitaram? Me parece um contrário à teoria moderna da higiene.
Falando em higiene, curiosamente não encontrei nenhum pêlo ou cabelo na minha comida. Mas você se pergunta. Pois bem não seria esse o esperado?
Parece que não.
Ao visitar a cozinha, cruzo com 2 babuínos lavando pratos, um bonobo preparando uma refeição requintada com sobras de pato e algumas ervilhas, e me encaminho para o escritório do cheff. Um chimpanzé bem vestido e de papo interessante, que vai pelo nome de Gwanto, origem de Ruanda, terra sem lei, sorvendo uma taça de chardonnay e baforando um charuto pomposo de tabaco duvidável, como é habitual dos chimpanzés. E como afinal era quase Natal, nada mais apropriado que tomar um bom vinho branco de segunda, sentado em um escritório fechado banhado no sol natalino de um dia quente e viscoso, carregado de nuvems. Prenuncio de chuva, chuva boa eu diria, muitos diriam chuva ruim.
Bonifacio, que é mais fácil que Gwanto, parecia não se importar, estava um tanto nojento com a pelagem grossa e meio falhada, pegajosa com suor e algum creme para primatas que promete uma pelagem mais lisa. No borneo as chuvas são bem piores ouvia-o dizer. Mas nos comedouros de lá, as garçonetes raramente são loiras e tem os seios fartos pulando por entre um belo decote.
E o fim da tarde prometia letargia, meu carteiro certamente não viria e
alguém teria seu presente atrasado para algum momento do futuro
proximo, caso a linearidade do tempo fosse mantida. Culparia, evidentemente o carteiro, o atraso das entregas na dilatação dos carros que causam muitos engarrafamentos essa época do ano. Ou dirá que está de greve lutando por um salário de verão para compensar o trajeto maior das ruas que expandem no sol de 859 graus que beija o asfalto sem qualquer clemência ou pudor, mas sem aceitar uma redução no inverno. Algumas pessoas culpam a diversidade de primatas nos empregos de atividade braçal, outros afirmam que isto seria apenas preconceito. Seja como, for desde que os jesuítas começaram a
catequizar alguns chimpanzés a história se repete.
Ninguém entende, ninguém aprende. A história força o seu caminho, a
vida segue e o tempo acabou. Achei que teria algo mais o que dizer.